Ultimamente tenho me sentido um zero à esquerda, sem coragem pra falar sobre qualquer coisa - é como se tivesse medo sobre o que tu fosses pensar ou deixar de pensar sobre qualquer coisa que fosse que eu tivesse pensando.
Estávamos numa roda, juntamente com nossas irmãs: a minha e a tua. Pernas cruzadas, sentadas em cima da areia, em volta de uma fogueira.
Num determinado momento tu comentavas que teus seios estavam doendo:
- traz ele pra cá, pra gente conhecer, vai ser legal! (era como se ele tivesse uns 6 meses e tivesse nascido ontem!) - eu te fazia o pedido encarecidamente.
- rum, aquela desgraça! tenho que passar na casa de onde ele está pra poder dar de mamar. (ele não era criado por ti, ficava na casa de uma outra família, e vez ou outra que ia vê-lo, por isso não o conhecíamos. em outra comparação, era como se o pai fosse um ficante qualquer, que aparecia em algum fim de semana e a gente exclamasse: 'desenterra!')
- então! Daí vocês vem pra cá... (a gente implorava pra tentar conhecer a criança)
- quantas vezes tenho que soletrar que ele é um karma na minha vida?! (tom de raiva)
- eeeeita! Só porque foi um caso, não quer dizer que ele tenha entrado na tua vida ao acaso! (minha irmã surpreendia)
- pois entrou! (respondeste em tom de desdenho) – mas, bora ver, talvez traga mesmo...
- acho bom, porque eu sei que tu não és assim. Esse jeito maldoso de ser não tem nada a ver contigo, essa situação toda não combina contigo: ser relapsa, covarde, rude! Eu sei que tu és sonhadora, do bem, com um generoso e solidário coração. (retruquei)
Tu ficastes calada. O olhar era cabisbaixo, envergonhado. Senti um aperto no peito e uma baita vontade de te dar abraço reconfortante. Eu iria dar, juro. Só que acordei. Deixa pra próxima então.





