Nessas últimas semanas tenho me perguntado incansavelmente todos os dias: "o que estou fazendo comigo?".
Reparei que estamos vivendo de lembranças e, em muitas delas você está presente.
Uma vez, andando em grupo pela orla, uma das pessoas te viu passar e cumprimentou. Minutos depois, sempre muito educado e bom de memória, você me direcionou a palavra: "lembro de você da escola - você fazia a 5ª e eu a 8ª série". Hmm, é verdade.
Anos mais tarde, em uma festa de baile do Havaí: "lembra daquele dia, em 2011, que encontrei com você, acho que seu namorado, seu primo e mais alguns amigos na boite? Que depois fomos para sua casa porque você havia feito um caldo de galinha delicioso!".
Ah! eu lembro desse dia, dessa festa, desse caldo, mas não lembro de você lá. Toda vez você me lembra dessa história e fico envergonhada de dizer que não me recordo de você nela. Às vezes, eu preferiria que tivesse sido assim e principalmente em não ter te notado no esquenta do Baile do Hawai, em 2013.
Se você não lembra, estávamos entre amigos na orla, você foi como convidado de alguém da turma e, de repente, como velhos amigos, conversávamos alucinados sobre bares, época de escola, amigos em comuns, professores, lugares, gírias, filmes, músicas...
Em menos de 3h após ter te "reconhecido", aconteceu algo que eu não esperava: eu te queria! Bebíamos na rua, e numa das ida ao banheiro do bar em frente, lembro de ter confessado pra uma das Minhas melhores amigas, que estava louca pra pular em seu pescoço. Ela disse que talvez tivessem sido as várias doses de vodka e cachaça de jambu. Mas não foi, e fomos só nós três pro Baile do Hawai: minha amiga, você e eu. E foi um dos melhores pré-carnavais que já pulei em toda minha vida, além de ter pulado no seu pescoço, pois é.
Você passou a ser notado e durante todo carnaval nossos corações pareciam estar em folia e, nossos corpos em sintonia.
Após o carnaval, você foi embora e meses depois nos reencontramos em outra cidade, nas minhas férias. Lá por outubro você veio passar algumas semanas e, quase no fim do ano, retornou para concluir os estudos.
2014 começou e, novamente, você veio para fazer uma prova, onde passou e assumiu o cargo, se mudando para cá.
Eu ainda te queria muito, nós nos encontrávamos e saíamos sempre. Era inevitável pensar em ti apenas como amigo, algo tinha que mudar. Mas você não levou a sério e, passado mais um carnaval, entre te querer e sofrer, decidi não pensar em você. Foi a ideia mais sensata que havia tomado porque o segundo trimestre de 2014 foi incrível em Dublin, ao lado de muitos amigos, amores e aventuras.
Quando retornei, chegamos a sair algumas vezes, mas apenas como bons amigos, abraços, apertos de mão e beijinhos no rosto. Você estava sempre cansado e chateado do trabalho, enquanto que eu me divertia com meus primos em churrascos e festas de família. Às vezes conhecia um cara ou outro no tinder, badoo ou alguma festa, ou era um ex que reaparecia. Em outras vezes me curtia em casa, assistindo filme, tocando violão, lendo um livro, estudando e preparando aula.
Tudo seguia bem: eu estava praticando a ociosidade, estava feliz por estar ao lado da família, o meu coração estava sereno, apenas com muita saudade de lugares e amigos, e você, algumas vezes, me chamando de "sumida".
Quando 2015 chegou, continuamos saindo pra barzinho, tomando alguma coisa na praça, fazendo programas que nos deixassem menos solitários, porque havíamos chegado ao ponto de termos somente um ao outro para nos socorrer desse mal: você era meu único amigo e eu sua única amiga, do qual podíamos recorrer parceria tanto para festas, quanto para conversas.
E, novamente, numa dessas saídas pra beber, ficamos totalmente embriagados, de um tanto que você até me pediu pra te ensinar a dançar. Eu aceitei e, mais uma vez, caí perdidamente na sua, me perdi em você. Pra variar, era mais um carnaval que se aproximava. A confusão na minha cabeça foi tanta que resolvi passar todos os dias de festa na praia. Você não havia ligado, não havia mandado mensagem. Eu me senti um lixo até descobrir que a cidade toda estava sem sinal de celular e sem internet. Depois que soube que, no sábado de carnaval, você havia ido na minha casa, comecei a ficar mais calma. Mesmo assim, te evitei ao máximo. Conversava o básico, sorria o necessário, adiava mais uma saída contigo o máximo que pudesse.
E quase duas semana depois, na sexta-feira, você me ligou e pediu que se não fosse demais, que abrisse o portão da frente da minha casa. Você notou que eu não estava nada animada; na verdade, desde o ocorrido entre nós dois, me joguei numa lista de filmes sem fim e maratona Grey's Anatomy, de um modo que aquilo parecia fugir às regras que havia me imposto. Mesmo assim, te fiz sala oferecendo uma dose de tequila, que você só aceitou com uma condição: de que eu tomasse junto contigo. Então, fomos para a cozinha, peguei sal, limão, preparei os copos e entornamos o primeiro, seguido de mais uns nove, um atrás do outro. Lá pelo quinto shot, você me atacou e me beijou ferozmente. Parecia faminto! Eu fiquei surpresa e um pouco aflita, afinal, estávamos na cozinha da casa dos meus pais, com os meus pais e minha irmã dentro da casa. Minto, somente minha irmã dentro da casa - meus pais estavam num churrasco na área da frente de um dos vizinhos. A gente até comeu um pouco do churrasco, mas você soube de uma rã à milanesa e queria experimentar. Eu disse aos meus pais que iria te levar em casa, peguei meu carro e fomos ao sushi comer rã à milanesa, por sua conta. Estávamos tão famintos devido a larica que em menos de cinco minutos devoramos o prato e fomos embora para a orla. Sentamos em um dos banquinhos e você me abraçou, me fez carinho, me beijou como se tivesse sem fôlego (e creio que queria que eu também ficasse sem). Nos entregamos um ao outro por todo o fim de semana: sexta, sábado e domingo. Você estava feliz porque estava dirigindo bem e queria se gabar me convidando pra dar algumas voltas de carro. A semana prosseguiu e parecíamos dois mortos de fome, saciando a vontade de um no outro com muitos beijos e sexo.
Até, no fim da semana de fevereiro, você dizer que havia uma novidade pra contar: havia pedido demissão e ia embora pro sul dali quinze dias.
Minha reação foi de choque: fiquei triste, fiquei feliz, não sei como fiquei. Fiquei triste, porque você era a única pessoa com quem estava compartilhando alguns dos meus vícios, e ao mesmo tempo, fiquei feliz por seres um cara brilhante, podendo dar continuidade em projetos para seguir como pesquisador. Por último,
eu não sei como fiquei, porque não estava entendendo mais nada, nem a mim, nem a você, nem a nada.
Pensei que talvez essa seja nossa sina, ou pelo menos a minha: conformar-se. A gente saiu mais algumas vezes, apenas para passear e dar alguns amassos, e no dia em que você disse seguir para um motel e eu disse que não, você ficou sem graça,e pedindo inúmeras desculpas. Eu não dei explicações e ao que parecia, eu estava tendo um ataque de bipolaridade: "te ver e não te querer, é improvável, é impossível; te ter e ter de esquecer é insuportável, é dor incrível".
Eu precisava ter dito não, ou tudo fugiria do controle. A pessoa tá saindo direto com outra, e um diz que vai embora e mesmo assim ainda quer continuar "comendo" a outra...! Sei lá, não é assim pra mim.
Você me pediu desculpas, meio que chorou agradecendo por ter sido sensacional com um cara tão cheio de problemas internos, como ele.
A gente ficou toda a semana sem se falar, e era a sua última na cidade. O tempo havia voado!
Na sexta, resolvi sair sozinha comigo mesma: peguei um maço de cigarro (que guardo desde o ano passado), passei em uma loja de conveniência, comprei três latas de Skol beats e fui para o começo da orla, escutar uns dances antigos, beber, fumar e chorar.
A liga do álcool e da nicotina foram batendo no corpo. Senti a necessidade de estar contigo, sentia falta dos teus olhares, das tuas palavras, dos seus toques, movimentos tímidos, de tudo. Te enviei uma mensagem com a lata exótica, e você respondeu na hora me perguntando onde eu tava. Começamos uma conversa rápida no messenger, e dali a pouco estávamos bebendo no posto, dançando forrós e bregas em uma festa (diga-se de passagem, só eu dançando, você continua péssimo!).
Tivemos mais um fim de semana nosso. Seu último final de semana...
É hoje, foi o temido dia, pensei que no sábado havia sido nossa despedida até você me convidar pra almoçar, depois do trabalho. O almoço foi um churrasco sortido muito bom. Como seu horário de almoço era curto, nos aproveitávamos nos beijando a todo momento. E no caminho, da sua volta para o trabalho, você me surpreende, me pedindo para que eu te resgatasse às 17:15h, porque queria um momento comigo sem correria.
Às 17:20h, estou estacionando o carro em frente ao seu trabalho, quando vejo seu pai esperando no carro. Seu voo é as 20h, será que você esqueceu?
Te liguei, fui na sua sala, procurei nas outras, não te achei, voltei para o carro e fui para o aeroporto, tentar sinal de internet para te mandar mensagem, já que minha operadora tava sem serviço. Fudeu!
Consegui te mandar uma mensagem de texto. Dali 10minutos você me liga, pedindo que me esperasse onde eu estava, que chegaria em 1 minuto e meio. Você adentrou o aeroporto e eu estava agachada, usando uma das tomadas carregando meu celular. Te vi mas não falei nada, continuei mexendo no celular. Você ficou andando de um lado pra outro na minha frente, dizendo que a prova se alongou, que teve cópias para finalizar o processo, pessoas estavam se despedindo, que Tava me ligando mas só dava caixa postal, "desculpa", "desculpa", "desculpa".
Me levantei, fui em direção ao carro e entrei. Ele seguiu meus passos, entrou dentro do carro, fechou a porta do passageiro e pulou em cima de mim. Não dá pra evitar que nos queremos, é nítido. E antes que você pudesse pegar o avião, nos despedimos despidos em volta de tanta paixão. Você ter confessado que gosta muito de mim foi a das melhores coisas que você já me disse. Que um dia a gente possa evoluir ao grau máximo: o amor.
Enquanto isso, entraremos em coma: você, dentro do avião; e eu no Iglu, pondo o sono em dia e repondo as energias.
Até breve! :****