terça-feira, 16 de março de 2010

O meu pseudo eu - ...continuação post anterior

É que ultimamente tenho estado assim: desesperada. Não é um desespero comum, é simplesmente, sei lá, medo?
Músicas me instigam, me integram.
É como um pensar avoante, que dá voltas, passeia, flutua, sorri. Sorri da destreza que completa a realeza. Às vezes, é um fingir do meu eu - vários eus. Maldita música que me destrói. É nela que me conforto, ou espero me confortar, me iludir. O quão vão é estar dentre as palavras, é consumi-la diante de notas e melodias na poesia da vida real. O quão vago é correr perigo, é saber e esperar, exatamente o novo, o inesperado. Por isso a inquietação, o desespero, o medo, o silêncio estão do meu lado, pertinho. Quanto ao silêncio, as melhores conversas são aquelas com presença de olhares, ações, fatos, passagem do tempo: assim leio e sou lida.
Ultimamente os dias tem sido mortais. A sensação é de morte, que estou morta, que vou morrer. "Sou forte mas também destrutiva." Sou altamente mórbida. Pronto, falei! Deveria ser segredo. À exatidão com que sou demente, 'expansiva e coisa e tal, sou uma aberração biológica - capaz de me comunicar com os mortos e essas coisas'.
E que o Deus venha mesmo, que me ajude, pois é no âmago da morte que estou viva.
E assim vou aguentando porque amo o perigo. E a respeito do perigo, é como o Cazuza canta a introspectiva Lispector "Corro perigo como toda pessoa que vive e a única coisa que me espera é exatamente o inesperado♫


Água Viva - Clarice,
"Mesmo para os descrentes há o instante do desespero que é divino: a ausência do Deus é um ato de religião.
Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que eu não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei - assim como se come e se vive o gosto da comida. Minha voz cai no abismo de teu silêncio. Tu me lês em silêncio. Mas nesse ilimitado campo mudo desdobro as asas, livre para viver. Então aceito o pior e entro no âmago da morte e para isto estou viva."

[ela me lê. às vezes só ela me entende.]

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